Quem com interesse queira visitar a Beira-Serra depara com uma vasta e notável oferta de propostas que, por certo, o vão encantar e enriquecer.

Francisco Antunes
Francisco Antunes

É natural que no silêncio bíblico da montanha, num recôncavo de frescura, o piado da passarada se ouvisse com mais nitidez…terá desse piado ou piadeira nascido a simpática aldeia do Pio-dão? (do latim piaus, deu piado, pio, piadeira, piada!!!)

Quem com interesse queira visitar a Beira-Serra depara com uma vasta e notável oferta de propostas que, por certo, o vão encantar e enriquecer.

Deverá, na minha modesta sugestão começar…começar pelo princípio do mundo, visitando a mata da Margaraça (margaça) situada na antiquíssima serra do Açor de ondulantes cumes e suaves encostas. O arcaico arvoredo é uma preciosa relíquia que a mata apresenta, cobria há milénios atrás os montes e vales que se avistam, então povoados por lobos, ursos, gamos, cabras e zevros (burros selvagens) …coelhos, lebres e perdizes…açores, abutres, gansos, grous, águias, corvos! Sim! É a toponímia que nos dá tanta informação. A região era um autêntico Éden!!

Só mais tarde houve povoamento humano, provavelmente de alguma tribo fugitiva a procurar abrigo naquele labirinto interminável de estranho relevo, que ainda hoje faz desnortear o forasteiro mais incauto. As gravuras rupestres da Vide são o documento que esse povo nos legou.

E o interessado viajante deliciar-se-á com a toponímia das aldeias que suavemente o vão acompanhando e informando das espécies da floresta perdida, mas que alimentou e formatou os primeiros habitantes da zona numa estranha e útil simbiose entre o Homem e o ambiente que o envolvia. Olhem só: Vinhó e Vide…têm “dupla” raiz comum e recordam o chamado “vinho americano” que tantos malefícios provocou na mente de muitas gerações! De igual proveito, a aguardente de medronho com elevado teor de álcool metílico. E continuando a jornada, no silêncio da montanha ressoa-nos estranhos ecos de Fajão (faias), da Relva, do Sobral…Aveleira, Sorgassosa, (sargasso), Maceira, Carvalhal, Cerquinho, Cedral, Cerdeira (cerejeira), Soito, Cortiça…esta a lembrar a sempre presente e utilíssima labuta das abelhas, e do mel.

É natural que no silêncio bíblico da montanha, num recôncavo de frescura, o piado da passarada se ouvisse com mais nitidez…terá desse piado ou piadeira nascido a simpática aldeia do Pio-dão? (do latim piaus, deu piado, pio, piadeira, piada!!!)

Já no Piódão é recomendável uma visita ao curioso núcleo de alfaias – espelho autêntico da alma e sabedoria de um povo humilde, sempre ignorado, que não ignorante, que, com auxílio da Natureza soube sobreviver através dos seculos. A floresta foi desaparecendo – pastoreio, cortes descontrolados, incêndios, pragas, tempestades – mas, extremamente solidário aquele povo foi conquistando a montanha palmo a palmo, construíram milhares de socalcos ou calhadas, construíram paredões, muros, levadas, açudes, pontes…sem cimento nem fero! Somente …com pedrinhas de calçada!!!

Pagaram elevado tributo à desgraça: parca alimentação, couves, grão, nabos, bolotas, castanha, centeio, porventura alguns frutos, leite ou um pouco de queijo. Elevadíssima mortalidade infantil, tuberculose, bócio, raquitismo e elevado número de casamentos consanguíneos a que isolamento propiciava.

Hoje, felizmente, as condições de vida são efetivamente melhores: vias de comunicação ainda que precárias, saneamento, telefone, luz elétrica, assistência médico-social. Resistiram os mais fortes, os mais aptos, merecem o nosso respeito, a nossa admiração!

E da inúmera e interessantíssima toponímia permitam-me que retire dois “fenómenos”; Malhada das Silhas…silhas são pedras redondas como pequenas mós, onde assentam os cortiços (cilíndricos). Ainda hoje, em Castela, sillas, são assentos, cadeiras… Não confundir com cilhas, que são correias com que se arreiam as cavalgaduras.

Coucedeira…uma palavra que foi “malhada” tanto e tão fortemente que se tornou irreconhecível. Deve ter começado por se nomear Codesseira (lugar de codessos – mato), o povo transformou-a em Coucedeira ou Coicedeira. Embora possa ter mantido os dois ss e finalmente o bravo militar que efectuou o último levantamento topográfico baptizou-a de Coice de Eira!!!

Regressando ao povoamento da região é surpreendente que na senda da História ali surja um povo diferenciado dos locais, certamente procurando no refugio a paz e o sossego da montanha. Enquanto os povos já estabelecidos eram de mediana estatura, cabelos pretos e castanhos, olhos da mesma coloração, pele morena, aquele povo recém-chegado era de cabelos louros, pele clara muito sensível ao sol, olhos azuis ou cinzentos, postura física de uma certa dignidade. Estabeleceram-se por perto na, hoje pequena aldeia do Baiol que, ironia do destino, significa amarelado-acastanhado!!! E o interessado viajante ficará sabendo que os topónimos com base na floresta ali terminaram ou são mais raros e aparecem nomes com raiz celta: Broca (poço), Várzeas (terra alagada), Candam (lugar com luz)! No politeísmo daquele povo, o deus da luz era Lug. O conhecido sufixo “briga”, significa montanha…terá Loriga raiz celta (Monte da Luz???). Na história da Europa sabemos que os Celtas vieram para Ocidente desde as planícies do Danúbio…pois na Baviera (alto Danúbio) há contos tradicionais que, mais uma ironia dos deuses:! os célebres contos de Fajão, deles são cópia fiel!!!

E o Açor não para de surpreender o interesse do visitante. Dreia…aldeia perto de Coja, tem raiz na palavra celta que significa carvalho – a árvore sagrada daquele Povo e à sombra da qual o Druidas (sacerdotes) realizavam as suas práticas religiosas.

Finalmente, para repouso do nosso amigo viajante, somente lhe dou a informação que no Sec. IV vieram monges da Irlanda, para a Ibéria, em missão de cristianizar. Eram chefiados por S. Patrício. Pouco se sabe da sua acção. Até há poucos anos a Irlanda era conhecida por república do Eire, Eire era uma deusa celta; Em gaélico, homem, diz-se Fir! Loho, homens do Eire…serão Fireires? Na região que termino de descrever, o apelido Freire é nobreza que pulula como dourados cogumelos!

Amigo: regresse em Paz, bom sono…sem os fantasmas do Açor.

 

PS. Em maré de recordações e fantasias, há um velho brinde com que na Beira Serra se saudava um amigo, quando em sua casa nos oferecia um “copo”: que arrebente quem no deu e viva quem no dá. Quem o deu – a videira…quem o dá – o dono da casa!

Pois bem, que na Festa do Queijo, Oliveira arrente (pelas costuras) e que fatias de estilhaços vos encham de felicidade!!!

 

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