Seis séculos de sangue mouro misturaram no nosso temperamento as virtudes e os defeitos que todos herdamos

Francisco Antunes
Francisco Antunes

Para alegrar o enfado destas linhas façam uma visita à nobilíssima igreja de S. Pedro de Lourosa edificada em pleno período muçulmano, e pensem no simbolismo que ela encerra: Paz, Fé, Tolerância de que tanto carecemos.

A nossa Beira Serra é, desde sempre, uma das regiões mais deprimidas e menos ricas do país. A pobreza dos solos, montanhosa zona de minifúndio, ausência de recursos naturais (minérios), afastada dos grandes centros com precárias vias de comunicação, condicionaram tal fenómeno. A emigração foi uma das consequências naturais da nossa penúria.

Somente nos alvores do Séc. XX com a chegada do caminho de ferro da Beira Alta e sequente construção de estradas e pontes houve algum desenvolvimento dos parcos recursos existentes: centrais hidro-elétricas, indústria de lanifícios, melhor aproveitamento da floresta – melhoria dos rebanhos, a lã, a carne, o queijo.

Na longa história da região, a parte mais substancial dos recursos já tinha sido esgotada pelos romanos – ouro, prata, estanho. Após a queda do Império Romano na Península foi ocupada pelos povos godos – Alanos, Suevos, Vândalos e aqui permaneceram durante cerca de dois séculos até serem vencidos pelos muçulmanos na célebre batalha de Guadalete. Entre nós deixaram alguns curiosos topónimos de origem germânica: Sandomil, Formarigo, Gofundo (luta de lobos), Sinde, Espariz, Anseriz…e sabiam alguns dos nossos conterrâneos que tenham por nome – Fernando, Gonçalo, Adosindo, Belmiro, Godinho…que os seus padrinhos foram Visigodos! E na língua portuguesa legaram-nos mais dois mil vocábulos!

Vencidos os Godos foi a Península invadida pelos muçulmanos – povos árabes do Oriente, Damasco, Beirute, Bagdade e povos mouros do nordeste de África. Mouro, significa cor escura. Decorria o ano 711 da nossa Era e em dois anos o exército invasor conquistou a Península com exceção das Astúrias. N´s Portugueses, conseguimos libertar o nosso território em 1263 no reinado de D. Afonso III, os Espanhóis somente se libertaram em 1492 com a tomada de Granada. Fomos ocupados por quási seis séculos…seiscentos anos!!

E dessa longa e dura permanência herdámos muito do nosso carácter e muito do nosso dia a dia…mais do que supomos! Desde logo o tipo físico de quási toda a nossa população, mais visível a sul do Douro – a estatura, a cor dos olhos e do cabelo, a cor da pele e quem, ainda hoje, for a Marrocos é com surpresa que “vê” conterrâneos e amigos: o Toino da Amélia, o Zé da Loja, a Marquinhas da Fonte…também são os nossos parentes…de lá!!!

Legaram-nos cerca de mil vocábulos: oxalá (Deus queira) …o xô, (para afastar as galinhas) …a chicha (carne)!!! O lenço com que ainda se vê em algumas igrejas, o círculo que os nossos cavadores ainda fazem na hora do “petique” à volta do tacho da “bucha”.

Existem em Marrocos dois petiscos de nomeada: a Tagine: guizado numa púcara de barro que é muito semelhante ao nosso frango na púcara, e uma deliciosa sopa – Harira – que é a nossa inesquecível sopa de pedra! E qual de nós não aprecia um bom escabeche, uma cabidela, ou umas quentinhas almondegas?

E aos mouros devemos as amendoeiras (almendras), os damascos, as nêsperas, os pêssegos…e as alcagoitas (amendoins). Não esqueçamos os açudes, as noras, os alcatruzes, as acequias (levadas) elementos sempre vigiados pelo almutacé!

A palavra Nora significa: rugir, ranger, o chiar da roda?

Na Baixinha de Coimbra ainda há a rua da Acequia, a rua do Almuxarife, não longe do arco Al-Medina (cidade).

E na Beira-Serra não faltam nomes e povoados a confirmar o nosso legado, o nosso parentesco: olhem o Moura, o Mourato, o Mourinho, o Moreno, o Mourisca, o Zagalo, o Zambujo, a Fátima, a Zaida, a Al(zai)ra…possivelmente alguns, oriundos da Moura, da Mourizia, de Alcaria (aldeia), da Samassa, de Sameice, da Mucela (manta), de Folques (barreira)…

E a ovelha merina que nos chegou vinda da tribu Merinidea do Norte de África?

E para alegrar o enfado destas linhas façam uma visita à nobilíssima igreja de S. Pedro de Lourosa edificada em pleno período muçulmano, e pensem no simbolismo que ela encerra: Paz, Fé, Tolerância de que tanto carecemos.

Seis séculos de sangue mouro misturaram no nosso temperamento as virtudes e os defeitos que todos herdamos.

 

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