ANCOSE pede maior fiscalização do leite proveniente de Espanha

Folha do Centro - ANCOSE pede maior fiscalização do leite proveniente de Espanha

Presidente da Associação Nacional de Criadores de Ovinos Serra da Estrela acusa a indústria de queijo de preferir o leite importado, contribuindo para a redução drástica do efetivo de raça bordaleira.

Sem papas na língua, como é seu apanágio, Manuel Marques, presidente da Associação Nacional de Criadores de Ovinos Serra da Estrela (ANCOSE) defende uma fiscalização mais “apertada” ao leite proveniente de Espanha que é utilizado para a produção de um queijo de ovelha “semelhante” ao queijo Serra da Estrela.

Em vésperas de mais uma feira do queijo Serra da Estrela, em Oliveira do Hospital, o dirigente daquela associação, que abrange 18 concelhos, com cerca de 80 efetivos de raça bordaleira, volta a ser uma das vozes criticas em relação ao panorama vivido na região demarcada da serra da Estrela, onde o dirigente se mostra preocupado com a redução drástica do efetivo animal.

Só nos últimos cinco anos estima-se que a região tenha perdido cerca de 40 mil ovelhas bordaleiras num universo de 120 mil. Números que dão que pensar, e que colocam o presidente da Ancose em “alerta máximo” relativamente à preservação de uma das maiores riquezas gastronómicas e culturais desta região. Mas se o número de rebanhos serra da Estrela tem reduzido de forma assustadora, na última década, Manuel Marques não tem dúvidas que há responsáveis e que eles estão, sobretudo, nas unidades de produção industrial. “Se os industriais em vez de comprarem leite a Espanha, comprassem aos nossos pastores, podia haver muito mais explorações e explorações mais rentáveis”, constata o dirigente, lamentando o desaparecimento de centenas de rebanhos nos últimos anos, por falta de rentabilidade, já que o preço pago pelo leite não é suficiente para manter as explorações de pé.

Com as fábricas a preferirem o leite importado, o presidente da Ancose só vê um caminho para o setor: uma maior regulação do setor do leite de ovelha, tal como acontece como o leite de vaca, de forma aos produtores “saberem com o que podem contar”. “A nova legislação do leite já traz algum conforto porque os pastores sabendo que têm o seu produto escoado e valorizado vão investir mais neste setor”, acredita Manuel Marques, para quem a venda de leite de ovelha bordaleira atualmente não compensa.

Também no queijo, Marques entende que há um trabalho a fazer pelas autoridades alimentares que há muito que devia estar feito. O dirigente da Ancose refere-se, nomeadamente, à distinção de uma vez por todas do que é queijo de ovelha e queijo serra da Estrela, feito exclusivamente com leite de ovelha bordaleira. “A ASAE em vez de andar a proibir as colheres de pau devia era resolver esta questão, mas não, deixa isto tudo à mistura confundindo o consumidor final”, acusa o dirigente, que realça a importância destas feiras para promover o genuíno queijo serra da Estrela. “Nós temos de defender aquele que é verdadeiro e é isso que temos medo que se perca”, afirma Manuel Marques, defendendo também uma maior união entre os produtores DOP, para não se “triturarem uns aos outros”, esmagando muitas vezes o preço daquele que é um produto único e de excelência. Foi com o intuito de “uniformizar” os preços do queijo Serra da Estrela, que a Ancose avançou recentemente com a criação de uma cooperativa, que pretende ser um centro de recolha e de venda da produção dos seus associados. “Vamos lutar com todas as forças para que este produto seja preservado”, garante o presidente da Ancose, para quem se “a indústria quisesse mantinha muito mais produtores e rebanhos na região”, assim deixasse de comprar o leite a Espanha.

 

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