Crónicas d’ Alvoco

Vasco Campos

Praias fluviais

Vejo por aí algum histerismo, público e privado, relacionado com a importância das praias fluviais na nossa região. As praias fluviais são polos de dinamização turística, mas não tanto como se faz querer parecer. Primeiro, porque apenas funcionam bem durante pouco mais de um mês, num ano bom dois meses. Segundo, porque a grande maioria do público que atraem pouco dinamiza a economia local. Ter uma praia fluvial e não ter a acompanhá-la outras infraestruturas turísticas, como alojamento e restauração de qualidade, vale pouco mais que zero. O caso mais paradigmático é o da praia fluvial de Avô, onde, clarifique-se, se gastou nos últimos anos mais de um milhão de euros! Para além de se questionar a harmonia da intervenção do ponto de vista paisagístico, indago como foi possível autorizar tecnicamente uma construção daquela dimensão em leito de cheia, num rio e seus afluentes com fortes características de rios de montanha, com águas torrenciais incertas? E mesmo aceitando a bondade da operação, pergunto, o que trouxe esse milhão de euros a Avô e à região? Avô não tem um restaurante. O último  fechou há uns anos. Avô não tem um hotel ou turismo rural. Avô não tem sequer onde se compre uma memória característica da região. O grande investimento em Avô não foi capaz de trazer, ou até manter, o investimento privado.

Este exemplo demonstra claramente que os investimentos públicos, ainda por cima errados e exacerbados, se não forem acompanhados de investimentos privados, não trazem desenvolvimento. E falo de Avô com mágoa, porque esta “nobre vila” tem um potencial turístico enorme. Tem tudo para ser um caso de sucesso. Avô precisa urgentemente de investimentos turísticos privados, que sejam acompanhados de investimentos públicos corretos.

Muitas vezes, ao poder público, mais do que realizar investimento público desgarrado, compete acarinhar, apoiar e acompanhar os empresários nos seus desideratos. Não são pois, sozinhas, as praias fluviais que promovem o desenvolvimento turístico local, mas sim um conjunto de políticas públicas e privadas, que, harmoniosamente, se casam em prol das nossas terras. O futuro turístico da região tem que passar pela valorização dos habitantes e operadores locais, pela qualificação do nosso património construído e pela conservação da paisagem, entre outros. São estes três pilares fundamentais. Pois uma região que não valorize as pessoas, o património e a paisagem torna-se numa região descaracterizada. Sem identidade. E uma região sem identidade não tem qualquer futuro. Morre.

P.S. – Nada me move contra Avô. Antes pelo contrário. Avô está no meu sangue. Para além de ser a terra de meu Pai e de muitos dos meus antepassados, foi aí que, como alguém deixou gravado numa pedra, o meu saudoso Avô Dr. Vasco de Campos, “exerceu o seu múnus”. E isso eu não esqueço.

José Vasco de Campos

 

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