E Deus?

varandas de avô

Vitor Neves – Gestor

“Enquanto o fogo é pequeno e tem juízo é o maior amigo do homem: aquece-o no Inverno, cozinha-lhe a comida, alumia-o durante a noite. Mas quando o fogo cresce de mais, zanga-se, enlouquece e fica mais ávido, mais cruel e mais perigoso do que todos os animais ferozes.”

Sophia de Mello Breyner Andresen in “A Menina do Mar”

Antes de 15 de Outubro de 2017.

Depois de 15 de Outubro de 2017.

É assim que se divide a História contemporânea de Oliveira do Hospital, da região centro interior…e de Portugal.

É assim a vida em Oliveira do Hospital: há um antes e um depois do pior dia das nossas vida, do maior incêndio de sempre, da maior tragédia da nossa história.

A nossa riqueza pintava-se de verde; a nossa tristeza pinta-se de preto: a cor da dor. A nova cor do Interior.

Vamos poupar nos palavrões: consolo do desespero; nos adjetivos: conforto para o indizível; nas análises: abundam os especialistas do dia seguinte; e nos juízos: tantos já são os atiradores.

O dia 15 de Outubro foi o dia em que faltou tudo, falhou tudo e não sobrou (quase) nada: Ardeu. Ardemos.

O clima mudou, aqueceu, secou, secou-nos.

A floresta mudou, menos limpa e menos bem frequentada por árvores que crescem muito e depressa, densificou, cercou-nos.

O resto nada mudou: falta prevenção, falta ação, falta responsabilidade.

Faltaram meios (dispensados!!!), vigias (canceladas!!!) e comunicações (avariadas). É a nossa costumeira irresponsabilidade, sustentada na nossa idiossincrática impunidade – ninguém vai preso, escuta-se.

O criminoso soltou o fogo e fogo soltou-se nas asas do vento e queimou (quase) tudo: Ardeu. Ardemos.

Quando há uma tragédia há uma notícia: a tragédia. Imedível e inquantificável, esta mais do que qualquer outra. Oliveira do Hospital queimado é agora todos os dias noticiado. E visitado. Contam-se os mortos, as ruínas das casas, as vidas destruídas, as empresas em escombros, a floresta perdida como se fosse o resultado do jogo…do fogo! Dói.

O dia 15 de Outubro foi o dia em que falhou tudo, faltou tudo, falhámos todos: governos (imperdoável) e governados. Sim, Nós que teimamos em sermos cada vez menos a ir votar, a sermos muitos a votar sem sentido e sem sentir, a sermos cada vez mais a não querer saber de nada nem de coisa nenhuma: passamos a vida a bater no estado e quando corre mal clamamos e insultamos o Estado, o Estado que também somos Nós.

Na manhã seguinte ao terror, à noite que foi para muitos a noite do fim deles no mundo, quando o fogo de tanto queimar deixou passar, cheguei a Oliveira do Hospital.

Oliveira do Hospital é a minha igreja, onde me (re)encontro, onde respiro, onde me respiro.

Entre fumo, pequenas chamas, sem céu, com os pés sobre cinzas e sem ar que não fosse queimado, de abraço em abraço e com as lágrimas metidas para dentro, percorri (quase) todo o concelho.

Quando parei num dos meus lugares de culto, no meu altar – o miradouro de Avô – envolvido num negro absoluto e apocalíptico, a dor foi tão forte, tão aguda, que o rio que me saía dos olhos embrulhou-me na fé, qual foz dos desesperados, e perguntei a Deus:

- Onde estavas?

No dia 15 de Outubro falhou tudo, faltou tudo.

Oliveira do Hospital vai ter que renascer.

Todos vamos ter que renascer. Todos vamos ser precisos. E o Deus de cada um também.

 

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