Imagens da capela dos 12 apóstolos em Vale de Maceira poderão ter sido destruídas

Folha do Centro - Imagens da capela dos 12 apóstolos em Vale de Maceira poderão ter sido destruídas

Especialistas denunciam violação das regras básicas de restauro no trabalho coordenado por Vieira Duque em 2007.

O restauro efetuado a 13 esculturas do Santuário da Nossa Senhora das Preces em 2007, está a gerar uma onda de críticas na imprensa e redes sociais, por parte de restauradores e críticos de arte, que já classificaram a intervenção da autoria do professor Miguel Vieira Duque, uma verdadeira “aberração”, com danos irreversíveis para as imagens datadas do século XIX.

“Este caso é muito grave”, disse André Remígio à agência Lusa, considerando que foram “violadas todas as regras mais básicas de restauro”, na iniciativa desenvolvida no Santuário da Nossa Senhora das Preces. André Remígio, administrador de um grupo de uma rede social que congrega conservadores e restauradores, garante que esta situação “é mais grave que o caso da Dona Cecília” Giménez, em Espanha, que repintou por livre iniciativa um quadro do século XIX, sem habilitações para tal. “Essa era inocente e fez o melhor que sabia. Aqui, há outros contornos”, sublinha, afirmando que Miguel Vieira Duque pintou as esculturas “como se fosse bricolage”, transmitindo “conhecimentos completamente patéticos” e “apaga a História”.
Ouvido pela Centro TV, Frederico Henriques, doutorado em restauro pela Universidade Católica, entende também que, do ponto de vista técnico, o trabalho realizado por Vieira Duque, “é uma adulteração total da imagem, da obra, do sentido estético e da história”, que só acontece porque o património em causa não está classificado. “De modo algum se pode pintar integralmente as esculturas”, afirmou, não tendo dúvidas que esta “é uma situação que escapou completamente ao controlo das entidades”. Apesar de já ter sido considerada uma situação irreversível, o especialista em restauro garante, todavia, “tecnicamente” ser possível recuperar as gravuras, o que só não pode ser viável do ponto de vista financeiro. “Seria um encargo financeiro muito grande e levaria meses a fazer”, diz.
Surpreendido com a polémica em torno do restauro das imagens da capela dos apóstolos, Basílio Martins, tesoureiro da Irmandade de Nossa Senhora das Preces, entidade que gere o espaço, estranha que só agora, volvidos tantos anos, é que o trabalho seja posto em causa, atribuindo esta situação a “um caso de concorrência entre artistas”, porque “senão tinham vindo cá analisar, tirar amostras e levar para laboratório para confirmar se foram usadas tintas plásticas como dizem”. O tesoureiro da Irmandade considera que “da maneira como as imagens estavam todas a cair, ficámos satisfeitos com o trabalho”, até porque “se estivesse mal feito as tintas já estariam a saltar, havia rachadelas, e isso não aconteceu”. “Agora vêm pessoas mais sabidas que dizem que está mal, a gente fica assim, na dúvida”, vacila, no entanto, aquele responsável pelo espaço, lembrando que as restantes imagens do conjunto de 14 capelas que compõe o santuário, no total 60, só não foram restauradas na altura, porque “não tínhamos dinheiro”. “Na altura toda a gente ficou contente” e “os próprios peregrinos dizem que é uma pena o resto das capelas não estarem assim” garante o tesoureiro da irmandade, que teme que este caso venha a prejudicar o Santuário. “Estamos aqui metidos num problema”.
Indignados da forma com este caso vem a público estão ainda os populares de Vale de Maceira, que lamentam sobretudo “a falta de respeito” de quem denunciou a alegada “destruição” das imagens, pelos responsáveis pelo Santuário. “Se tinha alguma coisa a dizer vinha ter primeiro com a irmandade e depois é que fazia a notícia”, afirma Maria Odete, que ainda se lembra do verão de 2007 em que por “brincadeira” auxiliou o artista, juntamente com outros populares, nos trabalhos de restauro.
Há 22 anos a trabalhar no ramo do restauro, Miguel Vieira Duque lamenta que este caso se tenha transformado numa perseguição pessoal e profissional “sem precedentes”, e adianta que o trabalho, da sua responsabilidade, o “enche de orgulho”. O também responsável pelo Museu da Fundação Dionísio Pinheiro, em Águeda, afirmou que as fotografias divulgadas na comunicação social “foram manipuladas”, lembrando que o restauro tem de ser visto “à luz de uma representação portuguesa do século XIX”, reflectindo uma “estética e um comportamento” característico dessa época.

 

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