Produtores de queijo Serra da Estrela começam a acreditar na renovação do setor

Folha do Centro - Produtores de queijo Serra da Estrela começam a acreditar na renovação do setor

Paula Lameiras

Paulo Rogério e a queijaria Lameiras em Vila Franca da Beira são dois exemplos de resistência na produção de um dos mais famosos queijos do mundo. Apesar de se assistir a um abandono da atividade pastorícia não desistem de sonhar com a renovação deste setor e com a valorização do queijo que produzem.

São ambos produtores certificados, têm em comum o facto de terem “herdado” a tradição do fabrico do queijo dos pais e dos avós, e apesar do “desânimo” que a certa altura tomou conta desta atividade, o conhecido produtor oliveirense Paulo Rogério e a queijeira Paula Lameiras em Vila Franca da Beira, começam a ver “algum futuro” na produção de um dos mais famosos queijos do mundo.

As habituais queixas que se ouvem nesta altura, às portas de mais uma festa do queijo, parecem agora querer ser substituídas pela palavra esperança. Os produtores acreditam que “vão dar a volta” à crise e ao abandono que se instalou no setor, e que foi deixando para trás dezenas de explorações também no concelho de Oliveira do Hospital. “Neste momento a indústria já começou a pagar mais um pouco pelo leite aos pastores, porque o leite espanhol entretanto também começou a subir de preço”, constata Paulo Rogério, lembrando que a legislação sobre o leite tem penalizado muito os produtores de leite de ovelha. “Enquanto chega aqui um camião cisterna de Espanha com 15, 20 ou 30 mil litros de leite e traz uma análise única para ele todo, aqui é preciso correr «seca e meca» para obtermos essa quantidade e o custo da recolha aumenta o preço do leite”, refere, pedindo a intervenção do Ministério da Agricultura nesta área.

“Agora já começam a querer comprar o leite porque o que vem de Espanha começa a vir mais caro”, reforça Paula Lameiras, cuja família vive, há várias gerações, da pastorícia. “Se eles (indústria) não comprassem leite a Espanha, talvez não houvesse tantas explorações que desistissem, porque se há procura de leite, a tendência é as pessoas voltarem a comprar e a aumentar os seus rebanhos”, faz notar a produtora, lembrando que tal como têm estado os preços quer do leite, quer do próprio queijo Serra da Estrela, “isto não compensa para o trabalho” e os mais novos “fogem” do setor. “A melhor valorização que podem dar ao queijo serra da Estrela é subir o preço”, diz, julgando que se este queijo é um produto “cada vez mais escasso” tem de ser pago como tal.

Já Paulo Rogério não tem dúvidas que “os produtores vão dar a volta no sentido positivo”, e quem se aguentou até agora, poderá até partir para novos projetos e novos investimentos que possam projetar o queijo serra da Estrela em novos mercados. O produtor refere-se concretamente ao projeto de investigação que está a ser desenvolvido pela BLC3 para colocar este queijo “à fatia” no mercado. “ Penso que a investigação está quase concluída e se for para a frente esta pode ser uma grande mais valia para os produtores de queijo Serra da Estrela DOP”, garante o produtor oliveirense, lembrando que o que se pretende com o queijo Serra da Estrela não é mais do que “aquilo que já acontece hoje com os queijos franceses que temos cá à venda”. “Como as famílias são tendencialmente mais pequenas esta é uma forma de fazer chegar o produto a um tipo de consumidor que se calhar não dava 15 euros ou mais por um queijo inteiro, mas dá dois euros ou dois euros e meio por uma fatia”, sustenta, aguardando com expectativa o arranque deste projeto, pois “seria uma mais valia interessante para os produtores” e para o próprio mercado, já que era uma forma do queijo chegar a mais locais de consumo.

“Se proibissem o cardo iríamos todos trabalhar clandestinamente”

O Governo português já arrepiou caminho quanto à diretiva da União Europeia que proibia o uso de cardo na confeção do queijo Serra da Estrela, mas se assim não fosse os produtores também “não iriam parar” nem tão pouco “deixar de utilizar” este coagulante de origem vegetal.

Quem o diz é Paulo Rogério, produtor e simultaneamente dirigente da Ancose, que “não sabe onde é que os responsáveis por estas leis estavam com a cabeça para quererem acabar com o cardo no queijo Serra da Estrela”. “Isto é a identidade de um país, de uma região que ia à vida”, considera o pastor/produtor oliveirense, recusando-se a trabalhar com outros coagulantes, independentemente das normas europeias serem prorrogadas ou não. “Temos indicações que a legislação vai ser prorrogada até 15 de março, porque senão vamos todos estar a trabalhar clandestinamente, porque aqui não se faz queijo de outra forma senão com cardo”, garante Paulo Rogério, lamentando mais esta tentativa de “matar” um trabalho e uma tradição ancestral, só porque “alguém se lembrou que o cardo não era controlado em laboratórios”.

“O queijo da Serra sempre foi feito com cardo senão deixava de ser queijo da serra, para ser outro queijo qualquer”, entende, lembrando que a Denominação de Origem Protegida deste queijo, que tem como uma das suas principais características o cardo, não é dos produtores é do Estado e “o Estado não a vai querer perder”.

Portanto, “isto nem sequer nos preocupa” porque “ninguém ia substituir o cardo” por outros fermentos lácteos, faz notar.

 

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