“Quero ser lembrado como o cangalheiro de Oliveira”

Chico Cangalheiro

Há 40 anos a providenciar o descanso eterno.

Francisco dos Santos Saraiva, 51 anos, conheceria o seu destino profissional ainda em criança, aos 11 anos de idade, quando começou a transportar caixões numa funerária sedeada na cidade da Guarda. O seu primeiro trabalho “ao serviço da morte” exigiu-lhe que carregasse aos ombros a urna de uma criança de tenra idade atropelada por um trator conduzido pelo próprio pai. Uma memória que acompanhará Chico, o cangalheiro de Oliveira – como gosta de ser conhecido – até ao fim dos seus dias.
Rodeado pelos mais diversos tipos de parafernália fúnebre – foi assim que o encontrámos no seu local de trabalho – Francisco confidencia-nos que lidar com a morte “é uma tarefa ingrata” e “ainda que tudo na vida se torne numa rotina, mesmo um profissional com 40 anos de serviço pode não conseguir esconder uma lágrima no desempenho do seu trabalho”.
“Fazia de tudo, desde pintar e estufar urnas a preparar e vestir mortos”, refere Francisco, recordando o tempo em que trabalhou na fábrica das urnas na Guarda.
Com 18 anos, já tinha ganho fama enquanto agente funerário fora do distrito da Guarda e foi-lhe proposto um trabalho a tempo inteiro na primeira funerária de Oliveira do Hospital, cujo dono carecia de disponibilidade para conduzir a carrinha funerária que havia adquirido.
Estávamos no início dos anos 80 e Francisco era já conhecido como o cangalheiro entre os oliveirenses. Foi nessa altura que, fruto dos “ossos do ofício”, começou a namorar a filha do então sacristão. Inicialmente relutante, a sua atual mulher não compreendia como era o seu prometido capaz de fazer as suas refeições no interior de um carro que transportava cadáveres diariamente. Hoje é feliz há 31 anos junto a “um homem simples, mas rico em boas ações”.
Prova de que “há mais vida para além da morte”, a Funerária Brito – sua entidade patronal há 30 anos – surpreendeu Chico com uma proposta que não o fez pensar duas vezes: 12 mil escudos mensais, o dobro do ordenado que ganhava na altura.
É com “momentos melhores e outros piores” que o “Chico da Funerária” encara o seu trabalho, garantindo ter feito “muitos amigos na área, mas nunca concorrentes”. Enquanto agente funerário, Francisco goza, assim como os seus dois colegas de trabalho, de isenção de horário. Todavia, todas as chamadas recebidas na funerária são reencaminhadas para o telemóvel de Chico, que está contactável 24 horas por dia, sete dias por semana, sempre com prontidão, dedicação, boa apresentação, simpatia e respeito pela dor emocional dos outros inerente à sua profissão.
E a dor de perder um ente querido leva a situações que vão de muito complicadas a bastante caricatas. Chico tem algumas delas bem presentes na memória. “Certa vez, preparei o morto e coloquei-o dentro da urna, mas quando a filha o viu descontrolou-se e deitou-se em cima do cadáver. A urna ficou completamente partida e teve de ser substituída”, recorda. “Outra vez houve em que uma senhora insistia em curar as feridas do pai morto com mercúrio”. “Foi uma situação complicada explicar-lhe que nada havia a fazer”, acrescenta Chico.
Embora não tenha intenção de comemorar os seus 40 anos “ao serviço da morte”, Francisco dos Santos Saraiva não precisa de usar palavras para transmitir que é um homem realizado no seu trabalho. A experiência de vida deixou-lhe, no entanto, uma certeza: “quando morrer quero ser cremado e já comprei um gavetão onde quero que sejam guardadas as minhas cinzas”. “Não quero castiçais, padres nem irmandades, apenas que assinalem os meus restos mortais como o cangalheiro da terra, pois é assim que quero ficar conhecido”, conclui.

O “negócio da morte”

Há 40 anos a trabalhar para que quem morre chegue da melhor forma à sua última morada, Chico, o cangalheiro, está mais do que em condições para nos falar da evolução do negócio da morte, que é tudo menos estanque.
Segundo o agente funerário, ao passo que, no passado, “o peso do caixão era dividido pelo maior número possível de familiares do morto, agora cabe, quase em exclusivo, aos serviços fúnebres”. Por outro lado, às simples velas dos funerais tradicionais, somam-se agora máquinas de café, água, ar condicionado e até câmaras de gelo. “Se antigamente era utilizado o método do lençol embebido em aguardente sob o rosto do morto para que este não ficasse negro, agora há cremes, maquilhagem e injeções”, explica Chico, acrescentando que a introdução de todos estes pormenores torna o funeral mais caro.
Com efeito, Francisco reconhece que numa agência funerária “a crise não se sente da mesma forma”. Apesar das famílias terem tendência a reduzir os custos com os funerais, o agente sabe, por experiência, que “todos gostam que o seu ente querido chegue da melhor maneira possível ao seu destino final”.
Não obstante, uma “boa” cerimónia fúnebre não é um privilégio ao alcance de qualquer bolsa, já que, segundo Francisco, os custos de um “funeral médio” podem ir dos 1500 aos 2000 euros, repartidos por irmandades, coveiros, serviço paroquial e sacristão, casa mortuária, taxas a pagar à junta de freguesia e, obviamente, à agência funerária.

Carolina Henriques

 

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